30 de maio de 2009

Aulas na UFBA

As turmas na Escola de Dança da UFBA continuam sendo duas, porém sofreram alterações em seus horários e valores. A turma I acontece às terças-feiras, das 19h às 20h30 e já está acontecendo. A turma II acontece às quintas-feiras, também das 19h às 20h30 e ainda está para se formar. O valor da mensalidade é de R$ 50, 00 por turma. Experimente uma aula grátis!

29 de abril de 2009

Aulas na Escola de Dança da UFBA

A partir do mês de maio estarei dando aulas na Escola de Dança da UFBA (Av.Ademar de Barros, s/nº, Campus de Ondina. Entrada pelo portão principal, em frente à Rua do Zoológico).
Tenho construido uma proposta pedagógica diferenciada para as danças sociais a dois, onde os conteúdos, organizados em três módulos interrelacionados durante os exercícios, são: percepção corporal, percepção espacial e percepção musical. A metodologia se baseia na proposição de problemas como alternativa a imitação e repetição de “passos”. Dessa forma, pretende-se capacitar os indivíduos para uma prática criativa e crítica das danças sociais a dois.
As turmas serão plurinivelares, ou seja, os exercícios propostos respeitarão a evolução e conhecimentos prévios de cada aluno. Serão abordados as diversas linguagens ("ritmos") como bolero, tango, samba, forró, salsa, dentre outros, considerando o interesse do grupo. As aulas acontecerão as terças e quintas, das 18h-19h e das 19h-20h e o valor da mensalidade é de R$ 70.
Agradeço a todos que me prestigiaram com suas presenças na aula aberta do dia 28/04. Mas atenção: seu direito a uma aula experimental gratuita está garantido em qualquer momento!
Agradeço a quem puder divulgar!

Somos Contemporâneos de Nosso Tempo? Parte II – Construindo uma proposta pedagógica

“O grande desafio da didática na área de dança é repensar, pesquisar e propor formas de ensino condizentes com as propostas contemporâneas de educação...O que determina a escolha metodológica – consciente ou não - de um professor de dança é o seu estar no mundo, que reflete o seu pensar e agir em sociedade sobre corpo, dança e educação”. (Isabel Marques)

Na modernidade educar significava disciplinar a subjetividade e treinar os indivíduos, concebidos e tratados como passivos e uniformes, para obter cópias perfeitas do conjunto de “verdades incontestáveis e imutáveis”, socialmente legitimado como conhecimento. Estes modelos denominados positivistas propunham uma educação reprodutora, onde o fluxo de informação se dá apenas do professor para os alunos, que devem ser provar sua capacidade de reproduzir cópias mecânicas do conhecimento transmitido em um tempo médio estipulado por especialistas. Já nas perspectivas pós-positivistas, o conhecimento passou a ser concebido como “um processo dinâmico e encarnado em sujeitos e instituições sociais em interação com seu meio vital e em permanente transformação”, onde professor experimenta o papel de articulador e promotor de atividades e se propõe a existência de saberes em lugar das verdades eternas (1).

Segundo o relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI (1996), as práticas pedagógicas devem preocupar-se em desenvolver quatro aprendizagens fundamentais, os “quatro pilares do conhecimento”, que são: aprender a conhecer (abertura para o conhecimento que liberta verdadeiramente da ignorância), aprender a fazer (coragem de executar, de correr riscos, de errar mesmo na busca de acertar), aprender a conviver (desafio da convivência que apresenta o respeito a todos como caminho do entendimento) e aprender a ser (papel do cidadão e objetivo de viver) (2).

Essas e outras reflexões sobre dança, educação e contemporaneidade aconteceram na disciplina Arte como Tecnologia Educacional, componente do eixo pedagógico do Curso de Licenciatura em Dança da UFBA, que cursei como aluna especial durante o ano de 2008. Foi o inicio do meu processo de estruturação de uma proposta pedagógica para as danças de salão condizente com as propostas contemporâneas de educação e em consonância com os conceitos de corpo, dança e mundo.

Em seu texto “Metodologia para o Ensino de Dança: Luxo ou Necessidade?”, Isabel Marques diz que “os avanços na área de ensino da dança no país parecem ser ignorados pela grande maioria de artistas-professores, sugerindo a crença que a experiência artística determine a habilidade de ensinar”. Argumenta ainda que a utilização inadequada da terminologia da ciência educação por grande parte dos professores de dança é um dos fatores que revela o “despreparo pedagógico destes profissionais” e propõe uma comparação “geográfica” para a compreensão dessa terminologia, onde a didática seria o “mapa do território”, as metodologias as “vias de acesso”, os procedimentos metodológicos os “meios de transporte” para se chegar a um determinado local (objetivos) e os conteúdos as “cargas” que se quer transportar (3).

Salvo as peculiaridades de cada profissional, o processo de ensino-aprendizagem das danças de salão em Salvador têm como principal conteúdo seqüências de movimentos, denominadas “PASSOS”, que são transmitidos através da imitação, seja através da observação da própria imagem no espelho, seja pela observação da “estrutura correta” dos corpos de outro casal, e apreendida pela repetição dos mesmos. É comum nomear os “passos”, o que permite sua evocação verbal, ao mesmo tempo em que gera nomenclaturas regionalizadas, algumas vezes compreendidas apenas dentro de cada escola de dança.

Considerando os quatro pilares do conhecimento anteriormente citados, o objetivo maior da minha proposta pedagógica é capacitar o indivíduo para uma prática criativa e crítica das danças sociais a dois. Concordando que os alunos devem receber do professor “conhecimentos e incentivos para que possam experimentar e criar suas próprias danças” (3), organizei os conteúdos em três módulos: percepção corporal, percepção espacial e percepção musical. Durante os exercícios provoco reflexões sobre corpo, dança e mundo, a fim de promover a reconstrução crítica destes conceitos dentro da realidade da sociedade contemporânea e do contexto das danças de salão.

Elegi os princípios norteadores da metodologia “Dança no Contexto”, desenvolvida e proposta por Isabel Marques, como base para estruturar minha proposta pedagógica, a saber: problematização, criação de uma rede de conhecimentos, transformação dos conteúdos específicos da dança e postura crítica diante do mundo. Dessa forma, tenho substituído a imitação-repetição das sequências de movimentos pela proposição de problemas, utilizando não apenas recursos visuais, mas também táteis-cinestésicos, auditivos e metafóricos.

Minha prática pedagógica continua em permanente transformação e tem sido gratificante perceber transformações criativas nas práticas e críticas nos discursos de meus alunos sobre as danças sociais a dois.

REFERÊNCIAS

1. NAJMANOVICH, Denise. Para Novas Paisagens Educativas in “O Sujeito Encarnado – Questões para Pesquisa no/do Cotidiano”. Rio de Janeiro: DP&A, 2001

2. RODRIGUES, Zuleide Blanco. Os Quatro Pilares de uma Educação pra o Século XXI e Suas Implicações na Prática Pedagógica. Disponível em http://www.educacional.com.br/articulistas/outrosEducacao_lista.asp?artigo=artigo0056. Acesso em 13/11/2008

3. MARQUES, Isabel. Metodologia para o Ensino de Dança: Luxo ou Necessidade? in “Lições de Dança nº04”. Rio de Janeiro: UniverCidade, 2003.

5 de abril de 2009

Somos Contemporâneos de Nosso Tempo? Parte I - Buscando novas terminologias

No final do ano de 2007, ao apresentar um anteprojeto para o mestrado em dança da UFBA me deparei com a necessidade de definir o objeto “Dança de Salão”. Da minha primeira tentativa surgiu o seguinte:
“Dança de Salão (no singular) é a categoria de dança executada por casais, constituída de subcategorias, conhecidas como RITMO...”
Pedi então ao amigo Hugo Leonardo, que na época cursava o mestrado em dança, que fizesse uma revisão crítica do anteprojeto. Dentre as suas valiosas contribuições, ele sinalizou que, tal definição incluiria uma gama de outras categorias de dança, como ballet, jazz e dança flamenca onde existam casais dançando. Esse questionamento marcou o início das minhas buscas por terminologias mais adequadas às escolhas conceituais da minha proposta pedagógica em dança de salão.
Comecei experimentando algumas mudanças. A primeira foi colocar o objeto de estudo no plural, já que ele comporta “subcategorias” dentro dele. O passo seguinte foi substituir o termo “categoria” por “configuração”, mais apropriado com o pensamento contemporâneo em dança. Busquei então reconhecer as características comuns entre suas linguagens (os tais “ritmos”). Por fim, decidi delimitar o ambiente onde o objeto acontece. E foi assim cheguei à seguinte definição:
“Danças de Salão (agora no plural) é o nome pelo qual é popularmente conhecida a configuração de dança, caracterizada pela execução por casais vinculados pelos membros superiores (abraço), comunicação interpessoal codificada e transmitida através do sentido tátil-cinestésico (pressão-movimento), deslocamento espacial (trânsito) e forte relação entre o repertório musical e coreográfico, seja para fins de exibição artística ou competitiva ou de entretenimento social.”
Me pareceu bom. Será mesmo? Algo ainda me dava uma sensação de que tal definição ainda não era representativa da sociedade contemporânea brasileira em que vivemos. Busquei então compreender o contexto histórico do surgimento das danças de salão.
Nascida na França do século XV, as “danças da corte” representavam o modelo de gênero da época, surgindo como uma estratégia “socialmente correta” para aproximar social e fisicamente homens e mulheres. Sua linguagem masculinista e heteronormativa pressupõe como “natural” o homem “conduzir” a mulher na dança, que, por sua vez, reluz a sua competência do seu condutor. Os bailes, que aconteciam com muito glamour nos salões dos palácios, se constituíam em oportunidade de avaliação das “qualidades desejáveis” dos “pretendentes ao matrimônio”, como educação, gentileza, segurança, virilidade, suavidade, submissão, etc. Seis séculos depois séculos os salões de bailes migraram dos palácios para os clubes e discotecas. Nestes ambientes as gerações se misturam. O repertório musical é bastante variado. Pessoas que dançam a dois dividem espaço com outras que dançam sozinhas ou em grupo. As “leis de trânsito” foram transgredidas em trajetórias caóticas. E ao contrário do que diz Tim Maia, cada vez mais vale “dançar homem com homem e mulher com mulher”.
A partir destas observações percebi que o nome “Danças de Salão”, ainda que no plural, não mais dava conta de representar a diversidade nas formas de se relacionar a dois em nossa sociedade atual. Quais as mudanças necessárias na forma de pensar esta configuração de dança dentro do nosso contexto? Somos contemporâneos de nosso tempo? Depois de muito quebrar a cabeça, elegi o termo Danças Sociais a Dois em substituição a Danças de Salão, que defino como:
“Danças Sociais a Dois, popularmente conhecida como danças de salão, é o nome da configuração de dança caracterizada pela execução por duplas (não necessariamente um homem e uma mulher) vinculadas pelos membros superiores (abraço), comunicação interpessoal codificada e transmitida através do sentido tátil-cinestésico (pressão-movimento), deslocamento espacial (trânsito) e forte relação entre o repertório musical e coreográfico.”
Entretanto, a cada “baile” que vou tenho observado as pessoas experimentando novos acordos, como dança entre pessoas do mesmo sexo, inversão dos papéis de condutor e conduzido, dança em trio ou revezamento de duplas durante a mesma música. E vislumbro que, num futuro não muito distante, sinto que será necessidade rever meus conceitos e terminologias, afinal, o tempo não para!

4 de janeiro de 2009

Lambazouk

Apresentação livre de lambazouk com os professores Evie Souto e Gil de Souza em 17/08/2008 a convite de Ítalo Mandarino, organizador do evento Bailados na Noite, no salão do Quartel de Amaralina, Salvador, Bahia.

Mostra Dança em Processo 2008

Experimentação do projeto de práxis pedagógica "Diálogos no Escuro: uma metodologia não visual para dança de salão" como processo da disciplina Arte como Tecnologia Educacional II em 21 de outubro de 2008 durante a semana da Mostra Dança em Processo da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia.

Experimentações Lambazoukeiras.wmv

Evie Souto e Gil de Souza experimentando movimentos no lambazouk durante o grupo de estudos sobre interfaces entre improvisação de contato e danças de salão com o professor David Iannitelli na Escola de Dança da UFBA.

Eu e a Dança: como tudo começou

Não existe presente sem passado: a forma como encaramos certas situações e objetos está impregnada por nossas vivências. Neste breve memorial desejo contar um pouco da minha trajetória de vida acadêmica e do meu envolvimento com as artes, em especial a dança, que resultaram nas minhas buscas atuais sobre o ensino e prática das danças sociais a dois.
Nasci em Salvador no ano de 1973 e, até onde minha memória permite, carrego em mim a necessidade permanente de expressão através do movimento. Meu “grande sonho”, como de muitas meninas da época, era fazer ballet clássico. Entretanto, aos sete anos fui rejeitada por uma academia de ballet, tendo sido considerada “pequena demais para a idade”. Tal frustração me fez abandonar o sonho da sapatilha cor-de-rosa e buscar outras formas de expressão artística, como jazz, ginástica rítmica, dança afro, suingue baiano, dança do ventre, teatro e canto coral.
Após concluir o ginásio, ingressei no curso técnico-profissionalizante em química pela Escola Técnica Federal da Bahia (atual CEFET), tendo concluído em 1991. Em seguida, por afinidade curricular ingressei na Faculdade de Farmácia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), me graduando em 1996. Durante toda a minha vida escolar necessitava significar as informações que estavam sendo “oferecidas” pelos professores, ou seja, a memorização acontecia não pela simples repetição, mas pela significação dos conteúdos. Paralelamente mantive a prática de atividades físicas e artísticas, especialmente a dança, para fins de saúde e entretenimento.
As Danças de Salão só entraram em minha vida em 1999, através de eventos conhecidos como baile-aulas em Salvador, onde então conheci o professor e dançarino Jayson França (atualmente com seu studio de dança em Maceió/AL), tendo sido sua namorada e parceira por três anos. Meu envolvimento com a prática pedagógica em danças de salão começou em 2002, motivada pela oportunidade de praticar gratuitamente ballet clássico, benefício concedido aos professores da Academia de Dança Maria Emília Clark, em Maceió/AL.
O sonho da sapatilha cor-de-rosa se tornou realidade durante um ano. Em julho deste mesmo ano participei do Curso de Aperfeiçoamento para Professores de Dança de Salão promovido pelo então Centro de Dança Jaime Arôxa, no Rio de Janeiro. O curso abordava aspectos técnicos, pedagógicos e comerciais, além de aulas de percepção rítmica aplicada à dança de salão. Foi o inicio dos primeiros questionamentos em relação aos conceitos e às metodologias de ensino utilizadas na dança de salão.
Em 2003, rompido relacionamento e parceria profissional, retornei a Salvador e comecei uma especialização em saúde coletiva outra vez na UFBA, onde tive contato teórico e prático com a pedagogia da pergunta de Paulo Freire, além da metodologia de planejamento estratégico-situacional. Paralelamente, tive contato com a metologia diferenciada do professor argentino Pablo Retamar, que nas suas aulas de tango reunia alunos de diversos níveis de conhecimento individualizando os exercícios voltados para a compreensão biomecânica dos movimentos e suas possibilidades. E os questionamentos continuaram a surgir. Em 2004 comecei a praticar contato de improvisação nas Jam Session coordenada pelos dançarinos Hugo Leonardo e Rossana Alves. A prática do contato de improvisação aguçou ainda mais minhas reflexões sobre a importância do sentido tátil-cinestésico para a comunicação e criação na dança de salão.
A idéia antropofágica não aceita passivamente andar pelos caminhos já cansativamente trilhados. Até 2006, mesmo sem fundamentação teórica, experimentei na minha práxis nas danças de salão conhecimentos adquiridos nas diversas áreas da dança que havia experimentado, além de buscar problematizar questões durante as aulas ou em discussões com outros profissionais da área. Em 2007, com o objetivo de fundamentar e transformar minha prática pedagógica em dança, ingressei na Escola de Dança da UFBA como aluna especial e cursei as disciplinas Danças Populares: Padrões em Evolução, Dança e Cognição (ambas do mestrado), além de Música e Ritmo (optativa da graduação). Em 2008 cursei o Módulo de Arte como Tecnologia Educacional I e II, pertencentes ao eixo pedagógico da graduação, além de formar com o professor David Ianetelli um grupo de estudo sobre princípios do contato de improvisação aplicado às danças de salão.
Nestes nove anos de observações, insatisfações, questionamentos e experimentações, continuo buscando aproximar o ensino e as práticas das danças de salão do contexto contemporâneo, através de reflexões sobre os conceitos de corpo, dança e mundo, sobre as transformações nas formas de se relacionar a dois que estão acontecendo em nossa sociedade e como isso tem se refletido nas formas se dançar socialmente a dois. Em 2009 pretendo continuar ampliando meus conhecimentos, dessa vez com as disciplinas Laboratório do Corpo, Laboratório de Criação Coreográfica e Estudos Crítico-Analíticos, além de dar continuidade ao grupo de estudo.

5 de outubro de 2008

Corpo e Dança: Uma Reflexão Histórica

Considerado a mais antiga das artes, a dança é também a única que dispensa materiais e ferramentas. Ela só depende do corpo e da vitalidade humana. Os conceitos de CORPO e DANÇA evoluíram ao longo da história. Aqui pretendo trazer um breve recorte deste processo histórico e suas implicações no ensino da dança.
A dança clássica impôs um modelo de “corpo ideal para a dança”, que tal como um “instrumento” necessita ser moldado de acordo com padrões técnicos de cada estilo de dança. O bailarino, concebido como “material humano” e desprovido de um “corpo vivido”, deve se submeter corporal, emocional e mentalmente àquilo que está sendo requerido dele externamente. Conseqüentemente, o processo educacional atrelado a esta concepção objetiva “aprimorar, controlar, vencer o corpo e seus limites físicos. Não há preocupação com o processo criativo individual, muito menos em traçar relações entre corpo, dança e sociedade. O produto é o objetivo último da educação em dança, valorizando o ensino das técnicas”.
A dança moderna surgiu no começo do século XX, propondo um corpo “como parte da natureza” sendo a dança, portanto, “a expressão natural e espontânea do ser humano”, enfatisando os sentimentos, tentando teatralizá-los ao máximo através de movimentos corporais. A americana Isadora Duncan foi um dos ícones da época, além do suíço Emile Dalcroze e do húngaro Rudolf Von Laban. Duncan propôs uma dança livre de espartilhos, meias e sapatilhas de ponta, além de utilizar músicas consideradas “não apropriadas para dança”, como peças de Chopin e Wagner, que na época eram executadas apenas para serem ouvidas. Os bailarinos dançam descalços, trabalham contrações, torções, desencaixe, etc. Os movimentos são mais livres, embora respeitem uma técnica fechada (a primeira técnica de dança moderna foi estruturada por Martha Graham nas décadas 20-30). Os desdobramentos educacionais da chamada “dança criativa” ou “expressão corporal” baseavam-se na crença de que o artista não deveria ser “invadido”, mas sim incetivado a se revelar naturalmente. Neste momento o processo torna-se mais importante que o produto.
A dança contemporânea surgiu na década de 60-70 com a substituição do “corpo natural” pelo conceito de “corpo pensante”. Não se define em técnicas ou movimentos específicos, pois o intérprete/bailarino ganha autonomia para construir suas próprias partituras coreográficas a partir de temas relacionados a questões políticas, sociais, culturais, autobiográficas, comportamentais ou cotidianas. Bailarinos norte-americanos como Yvonne Rainer e Steve Paxton buscavam movimentos ‘independentes de seu apelo visual e da técnica requerida para executá-los”, inaugurando a época da “democracia corporal”: não havia restrições de forma, peso, tamanho, flexibilidade, etc, para poder dançar. Essa geração “buscou na diversidade o direito de exercer autoridade sobre si mesma, refutando padrões convencionais impostos de corpo, arte e sociedade”. O ensino da dança priorizou o desenvolvimento da consciência corporal a partir de técnicas somáticas, (Alexander, Feldenkrais, Eutonia, Klauss Vianna) e da improvisação por contato (uma forma de dança que utiliza as leis físicas de atrito, dinâmica, gravidade e inércia para explorar a relação entre os bailarinos). Além disso, viu-se a necessidade da pesquisa teórica para complementação da prática.
Atualmente propõe-se o conceito de “corpo socialmente construído”, ou seja, o corpo como expressão de gênero, etnia, faixa etária, crença espiritual, classe social, etc. Pina Bausch, coreógrafa e dançarina alemã. Sua frase “não estou preocupada em como as pessoas se movem mas sim com o que move as pessoas” é um bom exemplo desta concepção. Suas coreografias são baseadas nas experiências de vida dos bailarinos e elaboradas conjuntamente. Várias de suas coreografias são relacionadas a cidades de todo o mundo, de onde retira idéias necessárias para seu trabalho durante as turnês. Este conceito tem levado a elaboração de propostas educacionais críticas em dança que “considerem tanto o processo como o produto, que não desconsiderem as técnicas, mas que ao mesmo tempo não abandonem o processo criativo e que, enfim, trabalhem a expressão pessoal como expressão de um corpo sócio-político-cultural”.
Citações retiradas do texto "Corpo, Dança e Educação" de Isabel Marques, pedagoga, mestre em dança e doutora em educação.

24 de setembro de 2008

Bicentenário da Dança de Salão no Brasil

“Os passos que compõem cada tipo de dança são, eles mesmos, um registro da sua história, o que significa dizer que também pertencem a um fluxo de transformações. Não sendo, portanto, passos puros, é a história de seus processos de hibridação que aparece quando o corpo dança.” (Vagner Rodrigues).
Este ano a dança de salão comemora 200 anos de sua chegada ao Brasil juntamente com outros hábitos sociais da Côrte Portuguesa. A seguir apresento um breve resumo do seu processo de evolução.
O nome DANÇA DE SALÃO consagrou-se na cultura brasileira para designar a configuração de dança executada por casais “abraçados” com fins de entretenimento social. O termo é a tradução de "Ballroom Dance", que embora designe também as danças com fins recreativos, hoje é praticamente sinônimo das danças de competição. Eu considero quatro características para definir DANÇA DE SALÃO: a execução a dois, o abraço, o deslocamento espacial (trânsito) e a comunicação entre o par codificada e transmitida através do sentido tátil-cinestésico (pressão e movimento), permitindo que a montagem dos movimentos em seqüências aconteça sem a necessidade de combinação prévia.
Originária nos bailes das cortes reais européias, as “danças da côrte” faziam parte da educação da nobreza e ganharam evidenciam na côrte do Rei Luiz XIV na França. O MINUETO é considerado a primeira dança de salão, apesar do abraço entre o par ter surgido somente três séculos depois, em Paris, com a VALSA. Supõe-se que o abraço lateral venha do fato que na época os soldados carregavam a espada no lado esquerdo. A postura adotada era clássica, corpo ereto e com o torso fixo como no ballet.
A cidade do Rio de Janeiro é considerada berço da dança de salão no Brasil. Foi ali que sua prática se popularizou rapidamente, tendo muitas de suas “regras de etiqueta” transgredidas. Por volta de 1837 começou-se a dançar valsa e já em 1870, influenciado pelo lundu e outras manifestações populares, surgia o MAXIXE, considerada a primeira dança de salão genuinamente brasileira. Por seu erotismo explícito nos corpos colados, pernas entrelaçadas e movimentos circulares de quadril ficou historicamente conhecida como “a dança excomungada”. Rejeitada pela elite social da época, desapareceu na sua forma original, mas marcou para sempre a forma brasileira de dançar a dois.
O advento do Rock nas décadas de 50-60 trouxe importantes mudanças no comportamento da sociedade brasileira. As danças de salão assistiu a “abertura” e “ruptura” de um dos seus principais símbolos: o abraço. Este fato possibilitou novas movimentações a dois, como giros com troca de posição e enrosques de braços, criando a necessidade de novos códigos de comunicação entre o par.
É através do contato com outras danças que surgem diversas formas de se dançar abraçado , às quais chamamos RITMOS, que muitas vezes recebe o nome do gênero musical a elas relacionado (tango, bolero, forró). O samba de gafieira, o sambarock, o forró e o lambazouk são exemplos de danças de salão brasileiras.

23 de setembro de 2008

Zouk, Lambada ou Lambazouk?

A cada dia cresce o número de praticantes de uma forma brasileira de dançar a dois sensual, suave, fluida, cheia de giros e abraços que acontece ao som de diversas sonoridades a qual chamamos ZOUK. Os espectadores maiores de 30 anos o identificam instantaneamente como uma lambada modificada. Muitos, entretanto, disseminam a idéia de que o zouk é uma dança de origem caribenha ou ainda africana. As informações que apresento neste texto foram extraídas do anteprojeto proposto por mim ao mestrado da Escola de Dança UFBA em 2007. Foram utilizadas como fontes textos publicados na internet e depoimentos de pessoas que vivenciaram a evolução da lambada.
A maioria dos relatos refere que durante a década de 80, na região norte do Brasil, as emissoras de rádios captavam músicas caribenhas. O encontro com as músicas nortistas produziram diversas sonoridades, dentre elas os "ritmos de batida forte", posteriormente denominado LAMBADA. Como forma de dançar tudo indica que a lambada tem suas raízes no CARIMBÓ, manifestação popular região norte desde os tempos coloniais, ondes os casais dançam de frente um para o outro (sem abraço!), com movimentos onde a mulher tenta encobrir o homem com a saia e muitos giros.
Ao chegar à região nordeste, recebeu influências do forró e nas areias das praias de Porto Seguro (BA) conquistou nativos e veranistas brasileiros e estrangeiros. A lambada dessa época usava as pernas bem dobradas e era marcada lateralmente com dois movimentos para cada lado. Em 1987 tornou-se um fenômeno mundial depois que dois empresários franceses vieram ao Brasil e compraram os direitos autorais de mais de 300 músicas brasileiras. Montaram o KAOMA com músicos de qualidade e uma senhora estrutura de Marketing.
Fazendo uma analogia ao ditado popular, "quanto mais rápido se sobe mais veloz é a queda". Em 1992 a produção musical da lambada entrou em extinção, com direito até a um enterro simbólico no centro do Rio de Janeiro pelos DJs da época. Entretanto, os lambadeiros desafiaram estas previsões “fúnebres” e se disposeram a experimentar outras sonoridades para continuar dançando. Esta atitude ficou imortalizada na frase de Tio Piu, ex-diretor-artístico da Ilha dos Pescadores, famoso reduto lambadeiro carioca: "Enquanto o lambadeiro viver a lambada jamais morrerá”. Embora outros sons continuassem a ser experimentados, foi o "zouk", já conhecido dos brasileiros como "lambada francesa" o estilo musical eleito para substituir musicalmente a lambada.
ZOUK, que significa “festa” no dialeto creole, é um movimento musical nascido nas ilhas caribenhas de colonização francesa. Lá, assim como na europa e na africa, o zouk é dançado de maneira completamente diferente da nossa: colado, sem giros, muito parecido com o merengue, segundo depoimento de quem andou por essas bandas. No Brasil o zouk chegou apenas como música através das rádios. Não há indícios da influência do zouk-dança do caribe na forma brasileira de dançar zouk.
Desde então nossa velha e querida lambada não parou de se reinventar. Conservou sua forma rítmica (três movimentos executados a cada dois tempos do compasso) mas adquiriu verticalidade no seu deslocamento, fluidez e suavidade, privilegiando o contato com o parceiro. Uma nova geração de dançarinos não-lambadeiros tem trazido em seus corpos influências do hiphop dentre outras, abrindo possibilidades para novas mutações.
A atual geração de lambazoukeiros brasileiros parece ter herdado a disposição em continuar experimentando e misturando sonoridades. Com o advento da tecnologia eletro-acústica, a batida do zouk tem sido inserida nas mais diversas sonoridades por uma geração de DJs-dançarinos, gerando as mais inusitadas misturas. Para essa tribo, zouk designa uma diversidade musical que parece ter em comum apenas a capacidade de desencadear a vontade de dançar.
Diante dessas informações, como denominar essa forma brasileira de dançar a dois: lambada, zouk ou lambazouk? Encontrei nas palavras de Willian Shakespeare o meu melhor argumento: “Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob outra designação não teria igual perfume?” Portanto, mais do que a defesa de um nome, devemos valorizar o conteúdo desse "produto nacional" da cultura popular brasileira.