Este blog é para mim um exercício e desafio pessoal de registrar com palavras escritas minhas vivências e idéias sobre dança, em especial sobre as danças de salão.
6 de abril de 2013
Era uma vez ... Brasil, Balé e Contemporaneidade
[...] segundo Forsythe, o vocabulário
clássico jamais será velho. É a sua escritura que pode ficar datada. [...] a
desestruturação da linguagem clássica permite obter possibilidades inauditas
ocultadas pela abordagem tradicional do balé. (PONZIO, 2003 apud FERREIRA, 2008).
Em 1950 foi
lançada a primeira edição do livro História da Dança e do Ballet[1], do bem
afamado musicólogo, crítico, jornalista e compositor espanhol Adolfo
Salazar. Tendo falecido apenas oito anos depois, não houve tempo para
atualizações. Entretanto, na edição de 1962, Thomas Ribas, responsável
pela tradução para o português bem como de notas e do conteúdo relativa a
Portugal, acrescentou um capítulo sobre Ballet Contemporâneo com a finalidade de atualizar a obra de Salazar como julgou que o
autor teria feito. O referido capítulo se propôs a traçar um panorama geral e mundial do balé contemporâneo. Entretanto,
tal “panorama geral e mundial” se reduziu artisticamente ao balé e geograficamente
a alguns países da Europa e aos Estados Unidos, construindo, nas suas
invisibilidades, um mundo sem Brasil, um Brasil sem balé e um balé que parece
recusar a contemporaneidade.
Tal
constatação levou-me a querer investigar melhor sobre a maneira como tem sido
contada a história da dança no Brasil. Para isso, tomei como base o artigo “Para
desequilibrar o balé: uma análise da constituição estética do balé” [2], de Rousejanny
da Silva Ferreira[3], onde foram
analisadas as produções brasileiras que mais frequentemente aparecem como
referências bibliográficas quando se trata da história da dança.
Segundo a
autora, a primeira produção nacional a tratar da história da dança foi o livro “A
Dança e a Escola de Ballet” de Pierre Michailowsky (1956), considerado como
pioneiro no Brasil do estudo teórico e técnico do balé pela sua contribuição
sistematizada deste estudo. Nele a dança é explicada sob o ponto de vista da
evolução natural até sua transformação em “arte” (leia-se balé).
Na década de
1980 a literatura brasileira referente à história da dança volta a ter impulso
com o lançamento dos livros “Balé: Uma Arte” de Dalal Achcar (1980); “Pequena
História da Dança” de Antônio de José Faro (1986) e “História da Dança” de
Maribel Portinari (1989). Na final da década de 1990, é lançado “História da
Dança: Evolução Cultural”, de Eliana Caminada (1999).
Para Ferreira
(2008), todas as obras citadas contam a história da dança pelo viés do eurocentrismo,
privilegiando a história do balé na Europa em detrimento de outras danças e
contextos, legitimando assim apenas uma parte da história do balé, já que há
poucas referências deste no século XX, principalmente após a década de 1920.
Além disso, abordam uma parte menor ainda da história da dança moderna e
contemporânea.
Em 2003 é
lançado o livro “A Formação do Balé Brasileiro” de Roberto Pereira (2003), que problematiza
o processo de formação do bailado nacional desde a vinda de companhias de balé
da Europa e a conseqüente construção da Escola de Bailados no Brasil na cidade
do Rio de Janeiro, marcando assim o inicio de novas reflexões sobre a história
da dança.
Conceitos românticos delineavam a concepção
da qual partiam as investidas no sentido de construir um balé que pudesse representar
o que era considerado como legitimamente brasileiro. Uma concepção importada,
de certo, mas que ansiava por ser traduzida num novo país, uma nova cultura. (PEREIRA,
2003 apud FERREIRA, 2008)
Contudo,
para refletir sobre como a historiografia brasileira sobre dança tem dialogado
com a produção artística das manifestações consideradas como balé faz-se
necessário entender de que balé se está falando. Ferreira (2008) chama atenção
para a compreensão de balé predominante nas obras analisadas:
[...] para a maioria dos autores analisados
o termo “balé” se refere ao sistema de dança formalizado a partir do reinado de
Luís XIV na França, com a criação da Escola Oficial em 1672 (Escola Acadêmica
Tradicional), onde surgem os balés de repertório, ligados ao lirismo romântico
e denominado pela maioria dos autores como Balé Clássico. (FERREIRA, 2008)
Para
Ferreira (2008), “a tradição, a composição do ideal clássico, aliado a uma
fórmula de balé romântico que vinha agradando platéia e coreógrafos por longos
anos, atravessou séculos e formulou um modelo de balé eleito como favorito e
oficial”.
Apesar da confirmação constante na crença deste modelo de
balé como eleito e destacado por esta historiografia, geralmente nestes livros,
enquanto movimento artístico, o balé aparece com poucas conexões entre arte e
sociedade, como se não fizesse parte de uma rede de interesses políticos,
movimentos artísticos, conflitos e reflexões que transformaram inclusive, sua
própria estética. Esse deslocamento formulou a crença de um balé à parte do
mundo, enquadrando a história da dança a movimentos estanques que surgem e
acabam se sobrepondo uns aos outros como a seguinte linha histórica: balé –
dança moderna – dança contemporânea. (FERREIRA,
2008)
Consequentemente,
os balés modernos e contemporâneos não recebem a mesma atenção e importância
devida, o que:
[...] influencia no (re)conhecimento desta
produção dentro do universo do balé, realçando uma situação de preferência, em
que os autores sequer problematizam como determinados balés se tornaram
clássicos e quais critérios são usados, já que as obras do século XX, também
pertencem a uma estética do balé mas que bebem em outras fontes, dentro de um
universo mais amplo da dança. (FERREIRA, 2008)
Com intuito
de identificar que outras formas de balé foram e ainda são construídos, e
enfatizar seu lugar no panorama da dança, a autora contra-argumenta em seu
artigo a maior parte da historiografia brasileira ao abrir espaço para outras
formas de balé, situando na medida do possível, seus desdobramentos e
cruzamentos artísticos, que foram negligenciados por estes livros, mas
valorizados por literaturas de outras linguagens da arte.
Ambos os
textos analisados apresentam os Ballets Russes de Serge Diaghilev como marco de
surgimento do ballet contemporâneo. Entretanto, Thomas Ribas conta a
história do ballet contemporâneo quase somente como um
emaranhado de nomes e datas, mais interessado em demonstrar a sobrevivência do
ballet acadêmico à “anarquia estética” dos tempos moderno e contemporâneo:
[...] a semente destes grandes mestres
russos foi de fundamental importância para que “os grandes padrões de ballet
acadêmico-clássico, romântico e imperial tivessem em nossos dias um verdadeiro
renascimento. (SALAZAR, 1962)
Já Ferreira
(2008) busca fazer uma análise dos Ballets Russes enquanto movimento de
vanguarda artística européia, onde os coreógrafos do balé se aproximam dos
intelectuais europeus e de todo o movimento modernista das artes que vinha
ocorrendo na época, contribuindo para uma renovação estética do balé.
[...] a morte dos Cisnes, de Michel Fokine,
que representa a morte do balé lírico-romântico, pois,acreditava que uma nova
maneira de se construir balés só era possível com a “morte” deste antigo modelo.
Já Vaslav Nijinski, bailarino e coreógrafo, rompeu com a estabilidade da dança,
atiçando a platéia com seus trabalhos sensuais e provocativos como “L’
aprés-midi d’ um faune, Jeux e Sacre du Printemps”.( FERREIRA, 2008)
Para a
autora, os trabalhos realizados nos Ballets Russes desencadearam uma série de
movimentos paralelos e também posteriores, como por exemplo, o balé
participando dos trabalhos performáticos, inclusive na Escola de Bauhaus, e nas
performances e vídeos criados pelos Ballets Suecos a partir de 1920, abrindo caminhos
para novas possibilidades de se pensar o balé do início do século XX ao tempo
recente.
A partir daí
vários coreógrafos lançaram novas discussões estéticas sobre o balé, a exemplo
de Kurt Jooss (Alemanha) que lançou os balés sócio-críticos, no qual postulava
que a linguagem do balé era tão expressiva quanto à palavra; os balés abstratos
de George Balanchine (Estados Unidos), baseados num esquema coreográfico sem
enredo ou cenário, onde o que mais importava era o movimento em si, e Maurice
Bejárt (Bélgica), que abordou a angústia de sua época e a busca por um significado
da humanidade.
O mais
recente, e ainda em atividade, William Forsythe (Alemanha) embaralha a técnica
do balé acadêmico, partindo de sua desconstrução, colocando o bailarino sempre
em estado de alerta. Para Ferreira (2008), essas estruturas desenvolvidas por
Forsythe e pelos coreógrafos anteriores a ele facilitaram “os cruzamentos do
balé acadêmico no cenário da dança contemporânea, trazendo novos significados
para o balé, como a possibilidade de flexibilizar a tradição e de incorporar as
inovações do pensamento da dança do tempo recente”.
Atualmente não
são poucas as companhias de balé que cruzam várias referências da dança, ‘desequilibrando’
a técnica acadêmica tradicional ao buscarem novas maneiras de utilizar este
corpo híbrido da dança de hoje. A autora cita como representantes dessa
experiência no Brasil o De Anima Ballet Contemporâneo no Rio de Janeiro, que
tem como referência principal a pesquisa de William Forsythe, o Ballet Stagium em
São Paulo, que engloba no seu balé características nacionalistas, utilizando
música popular brasileira nas suas composições; e o Grupo Corpo, em Minas
Gerais, que trabalha com a dança moderna, mas com base no balé acadêmico. Aqui
em Salvador podemos citar o Balé do Teatro Castro Alves, companhia de dança oficial do Estado
da Bahia, que desde a sua criação em 1981 assumiu o perfil de dança
contemporânea.
Em suas considerações finais, Ferreira (2008) alerta para as conseqüências da maneira simplista com que a
historiografia brasileira tem relatado essa mobilidade e descentralização da
produção balética, resultando quase sempre em uma construção histórica acrítica
e desatenta para com as transformações estéticas da própria arte, “não permitindo
assim que o balé seja visto com outras roupagens, construindo clássicos após o
período romântico, ou fora da Escola Tradicional”.
Apesar disso, ela afirma que tais mobilidades
existem e são legitimadas por algumas companhias que acreditam que o balé
também pode ter várias faces, desde a tradicional até a multiplicidade de
cruzamentos feitos por coreógrafos da contemporaneidade:
[...] o interessante de todos esses
movimentos e olhares diferentes para sua estética, é a manutenção e a
vivacidade de uma linguagem que não se estagnou e morreu com a decadência de
uma Escola Tradicional, e que pode ser reinventada a cada dia (FERREIRA, 2008)
Enfim, o
balé não precisa ser visto como um movimento estanque que vive de seu passado
europeu glorioso. Ele permite incorporar as mais variadas técnicas, debates e
críticas sobre seu processo e sua construção estética. Para isso, faz-se
necessário promover sérios debates sobre a historiografia que tem sido construída
ao longo do tempo, debruçando-se sobre ela com um olhar menos conservador e
mais reflexivo.
[1] SALAZAR, A. História
da Dança e do Ballet. Tradução, notas e
parte relativa a Portugal por Thomaz Ribas. Lisboa: Realizações Artis, 1962.
[2] FERREIRA, R. S. Para
Desequilibrar o Balé: uma análise
da constituição estética do balé. Revista Digital Art&. Ano VI. Número 10. Novembro de 2008. Disponível
em < http://www.revista.art.br/site-numero-10/trabalhos/21.htm > ISSN 1806-2962. Acesso em 06/03/2013.
[3] Pesquisadora em
dança, professora e bailarina, especialista em Filosofia da Arte pelo Instituto de Filosofia e Teologia de Goiás
(IFITEG).
Artigo sobre o tema BALÉ CONTEMPORÂNEO apresentado como avaliação do módulo Estudos do Corpo II, sob orientação das professoras Cida Linhares, Gilsamara Moura e Márcia Santiago, em 2012-2.
27 de março de 2013
12 de março de 2013
Resenha crítica do vídeodança SOLO#1
Deslizar de luzes e sombras. Fade in, fade out
para preto. Sons ritmados de engrenagens. Fade in, fade out para preto.
Staccato/ Paulo Caldas e Alpendre apresentam SOLO #1. A câmera corre por sobre
a grelha cênica e, como de dentro de um trem a baixa velocidade, o espectador
começa a vislumbrar abaixo de tais trilhos a dançarina, ainda estática, entre
as luzes e sombras que se movem por sobre ela. Zoom de aproximação sobre a
dançarina que se movimenta e fica outra vez estática. Corte repentino e
inesperado para novo ângulo. Estamos agora atrás da dançarina, e a vemos apenas
dos ombros para cima. Ela move a cabeça lentamente. Corta. Outra tomada. Agora
estamos na sua diagonal frontal à direita. A vemos de corpo inteiro. Ela se
move lentamente até o ponto onde congela bruscamente em alguma posição. Corta.
Novamente estamos acima, entre a grelha cênica e as varas. Corta, corta.
Estamos novamente bem próximos a ela, dessa vez frente a frente. Em determinado
momento, ela sai pelo lado esquerdo da tela, mas continua dançando, agora fora
do alcance da câmera. De seus movimentos só nos chega os ruídos. Retorna pelo
lado direito da tela e a vemos da boca até o umbigo. Dessa forma, câmeras,
sombras e luzes editam a coreografia.
O videodança SOLO #1 mais uma vez
aproxima coreografia e cinematografia enquanto escritas do movimento. Como em
outras obras da companhia, utiliza como estratégia alguns “efeitos de cinema”,
como cortse e fades, para compor tempo e espaço de modo a desfazer a
continuidade usualmente experimentada diante da cena de dança. Aqui a luz
enquadra e corta a cena, permitindo-lhe procedimentos de montagem em que os
movimentos já não se sucedem segundo qualquer linearidade. O espaço editado
exige que o olhar transite por sobre a cena e também para espaços anteriormente
fora do quadro, deslocando lateralmente toda a cena.
Aos três minutos do vídeo entra o solo de
piano, inicialmente monofônico, constituído por quatro e oito tempos de uma
única nota. A idéia de ostinato, frase musical persistentemente repetida numa mesma
altura, segue no crescimento da seqüência musical, que vai acumulando
notas. Em determinado momento a trilha ganha polifonia, com sobreposição de
duas, três, quatro melodias. A trilha ganha complexidade assim como a
coreografia, apesar do minimalismo de ambas.
Movimentos lentos e mudanças bruscas
executadas pela dançarina parecem sugerir as funções de aumento e redução de
velocidade dos programas de editção de vídeo. O deslocamento lento, à revelia
da tensão musical, me remeteu aos movimentos do Tai
chi chuan, estilo
de arte marcial reconhecido como uma forma de meditação em movimento.
A partir do minuto
8’45”, uma seqüência coreográfica é multiplicada no vídeo com imagens
capturadas de distintos ângulos, resultando numa profundidade surreal nos
moldes das construções impossíveis do holandês Maurits Escher, conduzindo a
lugar algum, como em um labirinto. Em seguida, outra seqüência coreográfica é
multiplicada no vídeo, novamente com imagens capturadas de distintos ângulos
porém agora acrescida de uma pequena defasagem temporal que resulta numa
espécie de cânone tridimensional. A imagem desaparece, mas o ruído de fundo,
contínuo e uníssono segue até o final dos créditos, sugerindo uma vez mais a
idéia de infinitude presente nas obras de Escher.
SOLO #1 faz parte do conjunto de obras da
companhia de dança carioca Staccato/ Paulo Caldas, que desde a década de 90 vem
desenvolvendo uma freqüente e bem sucedida aproximação com a linguagem
cinematográfica. O coreógrafo Paulo Caldas, além de diretor da companhia, é
também idealizador e diretor do Dança
em Foco - Festival
Internacional de Vídeo & Dança (primeiro evento brasileiro dedicado
exclusivamente à interface vídeo/ dança) e professor dos cursos de graduação em
dança da UniverCidade e da Faculdade Angel Vianna, onde coordena o pioneiro
curso de pós-graduação Estéticas do Movimento: Estudos em Dança, Vídeodança e
Multimídia.
FICHA TÉCNICA:
Direção: Alexandre Veras e Paulo Caldas
Coreografia: Paulo Caldas
Edição: Alexandre Veras
Bailarina/ Pesquisa
de Movimento: Carolina Wiehoff
Câmera: Alexandre Veras e Lucas Rodrigues
Assistente de
Câmera: J.Estolano
Maquinista: Rodrigo Dias
Coordenação Técnica: Luciano Faustino
Produção: Staccato / Paulo
Caldas
Parceria: Centro
Coreográfico do Rio de Janeiro e SESC Rio de Janeiro
Resenha crítica do videodança SOLO#1, de Stacatto/ Paulo Caldas, apresentado como avaliação da disciplina Estudos Monográfico sobre Tópicos em Dança, sob orientação da professora Márcia Mignac, em 2012-2. Disponível em < http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=_UO_uykfnV0>. Último acesso em 05/02/2013
Resumo do artigo “Transposição da Linguagem Coreográfica dos Salões para os Palcos”,
Em “Transposição da Linguagem Coreográfica dos Salões para os Palcos”, artigo apresentado no IV Colóquio Internacional de Etnocenologia da UFMG, Jomar Mesquita chama a atenção para a insipiência das pesquisas artísticas que utilizam as danças de salão como técnica de base para as suas criações coreográficas como conseqüência de alguns equívocos durante tal processo de transposição. Segundo Mesquita, os espetáculos de danças de salão frutos de pesquisas artísticas surgiram somente no final do século XX e, em sua opinião, a maioria dos grupos e companhias ainda não conseguiu se desvencilhar da reprodução do formato de baile, resultando quase sempre em produções cafonas, no estilo de show para turista, enquanto outros grupos perderam seu foco de pesquisa por se deixarem influenciar demasiadamente por outras técnicas de dança. Entretanto, o autor aponta para a emergência de algumas experiências bem sucedidas em preservar a base da linguagem coreográfica dos salões de forma inovadora e contemporânea, através da desconstrução e releitura de suas tradições, como tem feito a Mimulus Cia de Dança de Belo Horizonte. Denominada por alguns críticos como dança de salão contemporânea, a Mimulus Cia de Dança, na qual Mesquita atua como dançarino, coreógrafo e diretor, tem se apresentado e recebido premiações em renomados festivais internacionais de dança contemporânea devido à inovação da linguagem e ao tratamento profissional dado às suas produções. Enfim, Mesquita termina seu artigo lançando reflexões sobre os possíveis efeitos de tais transposições de linguagem coreográfica dos salões para os palcos: destruição de uma cultura popular ou transformação em uma nova e rica vertente da dança contemporânea?
Resumo acadêmico do artigo "Transposição da Linguagem Coreográfica dos Salões para os Palcos” de Jomar Mesquita, apresentado como avaliação da disciplina Estudos Monográfico sobre Tópicos em Dança, sob orientação da professora Márcia Mignac, em 2012-2. Artigo disponível na íntegra em < http://mimulusciadanca.wordpress.com/tag/artigo/
25 de dezembro de 2012
30 de outubro de 2012
Dançando a Bordo: Relato dos meus processos criativos em dança
SOBRE AS DIFICULDADES DE ESTAR A BORDO
Quando criança, eu
era uma leitora assídua dos gibis da Luluzinha e como ela tinha um “Querido
Diário”, cismei que teria um também. Mãe, eu quero ter um diário! E lá fomo nós
na papelaria comprar aquele que eu acreditava que seria meu companheiro de
segredos. Escolhi um modelo com fecho-cadeado, sim porque todo diário que se
preze deve ser capaz de manter a sete chaves os segredos a ele confiados
guardados. O meu tinha apenas uma frágil chavinha, que eu cuidava de manter bem
escondida dos curiosos da família, mudando o local do esconderijo de tempos em
tempos. Apesar de sentir orgulho do meu cobiçado tesouro, essa minha primeira
experiência com um diário não foi promissora. O fato é que meu lado Emília
sempre superou o meu lado Luluzinha. A caneta nunca foi páreo para a língua! O
pouco da minha tagarelice que foi deglutida e chegou até meus dedos só
aconteceu por pressão escolar (tenho que escrever porque é para nota).
Uma década depois,
remexendo nos meus guardados, reencontrei o famigerado caderninho trancado.
Como já não me lembrava onde havia sido o último esconderijo da chavinha,
cortei a alça onde se prendia o fecho-cadeado e me pus a folhear as páginas praticamente
em branco, quase todas encabeçadas com a frase “meu querido diário”, a mesma
usada pela Luluzinha. Naquela época o que importava era TER o bendito diário, e
não registrar alguma coisa nele. Pobre diário, nunca havia sido “querido” de
fato. Nunca lhe confiei nenhum segredo, apenas breves registros de
acontecimentos. Coisa de criança boba isso de ter um diário, pensei ao jogar no
lixo o inútil caderninho. E assim, nunca mais quis saber de diários!
Em 1989 entrei para o
curso técnico profissionalizante em química. Meus escritos, quase sempre analítico-descritivos,
foram sendo eficientemente moldados na impessoalidade fria das ciências exatas
(e posteriormente nas da saúde) onde a credibilidade do processo é diretamente
proporcional ao distanciamento entre o observador e seus processos. Durante
treze anos de minha vida pratiquei confortavelmente tal distanciamento, e cada
vez mais recebia elogios pela minha escrita clara, coerente, neutra, impessoal.
Afinal, cientista que se preza não se envolve com seus próprios processos! Descrever
e analisar meus processos de fora nunca foi um problema. Eu me orgulhava desse meu
estilo “científico” de escrita e tinha plena convicção de era assim que tinha
de ser feito.
Fui uma escritora
eventual e feliz até 2003, quando, durante minha especialização em saúde
coletiva, foi proposto um diário de campo como atividade de estágio. Fiz uma
descrição primorosa das atividades da primeira semana e fiquei chocada quando a
orientadora apontou como problema o que eu considerava como a minha maior
virtude: “- Seu texto está muito bem escrito, mas você não está presente nele.
É preciso observar os processos de dentro deles”. Aquilo me soou como uma
espécie de blasfêmia! Não podia conceber que verbos conjugados na primeira
pessoa do singular e plural comprometessem a credibilidade da minha escrita! Não
podia aceitar que meus textos fossem invadidos por EUs e NÓSes! Já não me
sentia segura frente aos meus próprios processos. Era como me despir na frente
de estranhos. A Ciência jamais perdoaria tal heresia. Maldito Diário de Campo!
Mas não me deixei
sucumbir sem lutar. Insisti na impessoalidade, construindo frases decentemente
iniciadas com “realizou-se, obteve-se, observou-se, conclui-se”. Mas meus
orientadores não me deram trégua. Continuaram me atordoando com a mesma
pergunta “- Cadê você no texto?”. Aos poucos e muito a contragosto, acabei me permitindo
o uso de EUs e NÓSes, estes últimos menos sofrido, posto que podia dividir a
culpa de tal infração com outras pessoas. Os EUs continuavam a ser um árduo
exercício de imersão. Foi então que me dei conta de que vivia um paradoxo:
enquanto lutava para me manter fora dos meus escritos, o meu discurso falado
era sempre cheio de EUs! Quem sabe eu não seja um caso de TBP (transtorno
bipolar pronominal): momentos de EUgocetrismo verborréico intercalados com
momentos de CALE-SEgrafia autoexcludente (será que existe remédio para isto?)
Tive que lidar com
esse problema durante todo o ano de 2003. Respirei aliviada quando ele
terminou! Agora, oito anos depois, o módulo Estudos dos Processos Criativos I resolve
evocar o fantasma do Maldito Diário. Primeiro rejeitei-o, depois, veio o
bloqueio: não tenho vontade de escrevê-lo. Depois me permitir arriscar, pois agora
o contexto é outro. As Artes e as Ciências Humanas têm me animado a estar a
bordo dos meus processos criativos. Os EUs e os NÓSes já não me incomodam mais,
pelo contrário, gosto de me ver grafimaterializada naquilo que escrevo, afinal
as palavras faladas são levadas pelo vento.
Então, decidi “chutar
o pau da barraca”, autoprofanar a minha “escrita cientificamente correta”. Mais
do que um simples registro das minhas vivências durante o módulo de Estudos dos
Processos Criativos I, este diário é um exercício de estar a bordo de mim
mesma, de trilhar novos caminhos textuais, de deixar que minhas percepções e
sentimentos durante os meus processos de criação em dança guiem os meus dedos
no teclado. Diferentemente do que fiz a vida inteira, não me preocuparei em
descrever detalhadamente todas as atividades da qual participei. Selecionarei os
aspectos que mais despertaram interesse e refletirei sobre ele. Tomarei licença
poética e me permitirei todos os neologismos que tiver vontade. É bem possível
que essa minha insurreição resulte em um texto mal escrito, desconexo,
incoerente, confuso ou até mesmo ridículo. E daí? E se assim for, o terá sido
em conseqüência de possíveis turbulências vividas durante tais processos em que
estive a bordo. Assim, é de minha livre e espontânea vontade me permitir “surtar”
para desfrutar dessa oportunidade (talvez única, talvez a primeira de muitas) de
falar sobre mim mesma. Bem vindo a bordo e boa leitura!
SOBRE A TRANSVERSALIDADE ENTRE OS MÓDULOS
A presença de Clara Trigo
durante a primeira aula de Estudos do Corpo I (ECO I) me deixou ao mesmo tempo
feliz e confusa. Seria a ela a “professora a contratar” para ECO I ou fora Estudos
dos Processos Criativos I (EPC I) tinha mudado de horário? Nenhuma coisa nem
outra, ela havia acordado com as galinhas apenas para participar da aula e
conhecer a turma mais cedo. Notebook ligado, ela ora digitava, ora fazia um
pedaço da aula, ora parava para conversar com Gilsamara ou Marcinha. E a minha
curiosidade só aumentava. Criativa e irreverente, o que estaria ela
“aprontando” com aquela visita temporã?
Tive que esperar até
a aula de EPC I para entender o sentido daquela visita. Clara nos propôs uma
atividade de criação em dança a partir do que tínhamos vivenciado na aula de
ECO I. Gosto da proposta de transversalizar os módulos (pena que os Estudos
Críticos Analíticos sempre fiquem de fora). Essa disposição de Clara em
extrapolar seu horário de trabalho para que, desde o começo, possamos
relacionar nossos futuros processos de criação em dança com os movimentos
estudados em ECO I só aumentou a admiração que tenho por ela desde o semestre
passado, quando tive o prazer de ser sua aluna em ECO IV.
Clara tornou a fazer
isso outras vezes mais. Acho que sua estratégia de trabalho contribuiu para o
aparecimento freqüente e espontâneo de vários movimentos que temos estudado em
ECO I durante o atual processo criativo coletivo da turma. Quando estou
improvisando e estes movimentos emergem, fico feliz em perceber que eles
ficaram registrados no meu corpo mais do que eu supunha, posto que sinto uma
certa dificuldade em memorizar seqüências.
SOBRE O USO DO TOQUE COMO ESTÍMULO
O toque para mim é
talvez o mais poderoso estímulo para a improvisação. Neste semestre fizemos vários
experimentos utilizando o toque. Um dia a sala foi dividida em grupos de quatro
a cinco pessoas duas situações distintas, onde se faziam necessárias entrega e
confiança para trabalhar com os olhos fechados. Num primeiro momento o desafio
era deitar no chão e relaxar o corpo de modo a permitir que os outros membros
do grupo o manipulassem. Percebi a necessidade de confiar para perder o medo de
ser machucado, estar disponível para deixar-se levar, sem deixar de desempenhar
um papel ativo. Gosto muita dessa entrega. É uma sensação parecida a que sinto
durante o contato de improvisação e as danças de salão. Chegar neste estado
ótimo de relaxamento que permita a manipulação do outro, mas que não implique
num abandono de si mesmo só é possível se houver concentração e entrega de
ambas as partes. Para mim foi um exercício muito gostoso!
Na segunda situação,
o desafio era praticamente o oposto: quem estivesse de pé no centro da roda
deveria enrijecer o corpo para tornar possível ser empurrado pelos demais
colegas do grupo. A confiança e a concentração continuaram sendo necessárias
para resistir à vontade de abrir os olhos pelo medo de cair. Entretanto a
condição corporal neste momento foi o contrário do momento anterior: a
imobilidade promovida pela rigidez era imprescindível para o trabalho daqueles
que empurravam.
Após o exercício
discutimos sobre a compreensão dessa “entrega” como corpo disponível para a
interferência do outro em relação à idéia de passividade sem autonomia. Clara
colocou que “o tempo todo estamos negociando entre as possibilidades e as
regras”. Essas discussões sempre me interessam muito, pois me são úteis para
refletir sobre muitos aspectos da minha prática corporal e pedagógica nas
danças de salão. Outros pontos levantados e que achei especialmente
interessantes foram sobre a confiança transmitida pela qualidade do toque,
sobre a necessidade que o dançarino tem de se dispor ao risco, sobre
comprometimento do grupo em um trabalho que foi, ao mesmo tempo, coletivo e
individual.
Reconheço ainda que
busco o toque como estímulo mesmo durante um aquecimento improvisado que
começou individualmente, onde escolhi partir dos rolamentos de Gilsamara
buscando no chão um substituto para a minha “dependência epidérmica”. Fico
animada quando ao saber que vamos trabalhar em duplas! Vejo que só sobrou
Carol, então vou deslizando pelo chão até ela e, tão logo a distância permita,
eu toco seu corpo e a gente começa a improvisar a partir do contato.
Reconhecemos isso logo de cara (“tá virando contato, né? Diz Carol).
O toque da pele é um
estímulo mais eficiente que o chão e por isso me sinto mais motivada a dançar
em dupla. Trocamos de dupla e eu dancei com Jamile. Dessa vez, foi ela quem me
tocou primeiro, me levando pela mão. Alguém segurando a minha mão me remete
imediatamente a minha prática de danças de salão. Comecei a variar as
qualidades do toque. Juntamos-nos a outra dupla que estava próxima por
solicitação de Martha. A improvisação por contato continuou.
Durante a discussão
coletiva levantou-se a questão da condução (opa, isso aí muito me interessa!).
Nas duplas, trios, ou grupos é relevante que exista uma condução ou um
condutor(a)? É possível haver condução sem perder autonomia? Achei legal Viola
ter utilizado o termo “proponente de movimento”, o mesmo que adotei há alguns
anos nas minhas aulas de danças de salão. Renner falou em “pedir a permissão do
toque”, no sentido de respeitar a privacidade do corpo do outro. Alguém
observou que “quando a gente se acostuma com o corpo de alguém e depois muda ,
há um certo choque até se acostumar de novo”. Alguém falou que o olhar cria uma
“predominância” sobre os demais sentidos, podendo mesmo “atrapalhar na
intimidade de dançar com o outro”. Muito
do que foi discutido neste dia eu transpus para minhas reflexões nas danças de
salão.
STUDIEN FÜR VIOLA (ESTUDOS PARA VIOLA)
Sei que tudo o que vivenciamos tanto nas
aulas de EPC I quanto fora delas contribuiu para o nosso atual processo “coletivo-unificado”
da turma (leia-se “grupão”). Mas se
eu fosse escolher um momento par começar a contar a nossa história, começaria no
dia 11 de abril, quando experimentamos pela primeira vez a proposta de Viola, nossa
colega alemã com pinta de prenda gaúcha, inspirada nas estratégias de criação
das poesias concretas que Clara nos mostrou na aula anterior. E assim nasceu o que batizei como Studien Für Viola.
Neste dia eu estava
exausta da aula de ECO I e confesso que estava achando complicada a proposta de
Viola, que desenhava com esmero e precisão vinte pontos eqüidistantes entre si,
arranjados em formato losangular. Olhei tanto para aqueles losângulos e via
moléculas de benzeno (que são hexágonos e não losângulos). Mas nem mesmo todo o
meu gosto pela simetria conseguia me animar, pois havia muitas coisas não me
agradavam.
Como relatei no
semestre passado há muitos anos atrás perdi a motivação para a dança solo. Já
as “dinâmicas de multidão” (carnaval dentre outras festas populares) me provocam
certo tipo de pânico. Então imagine o meu estado de ânimo frente à perspectiva
de experimentar as duas coisas ao mesmo tempo! Embora sem a mínima disposição,
eu me resignei a participar do experimento. Uma eternidade parece ter se
passado até que Viola estivesse satisfeita com as nossas posições iniciais
(acho melhor alguém trazer trena e giz na próxima aula, para ela marcar os
lugares no chão).
Entendi que a idéia
era reproduzir o movimento da pessoa do seu grupo que estivesse à frente dos
demais, uma espécie de líder. A mudança de direção provocava a mudança de
liderança. Pelo menos não terei de decorar seqüências, pois cada um vai
improvisar a sua. Então é só imitar o líder e rezar para a liderança não virar
para o meu lado.
A primeira
experiência foi sem música (Senhor tem misericórdia de mim!). Eu me concentrava
para me movimentar mantendo o bendito quadrado ao qual pertencia. Estava me sentindo
um pino preso no chão, que podia mudar de direção, mas tinha mudar a distancia
dos outros pinos. Paramos e Viola quis experimentar algumas modificações ao
mesmo tempo, e aquele experimento me parecia cada vez mais confuso e
desanimador.
A coisa melhorou um pouco quando colocaram
músicas, mas algumas das músicas escolhidas tinham a batida muito evidente e a
turma entrou numa espécie de aeróbica chata e desgastante para mim
(decididamente estou ficando velha!). Gente, que tal experimentarmos outras
músicas? Graças a Deus a turma concordou. Aos poucos os quadrados foram dando
lugar a outros arranjos e foram surgindo solos, duos, trios e outros grupos
maiores, que a todo o momento se rearranjavam. Viola agora nos vê como
constelações.
Acho que o registro em vídeo para posterior
análise dos nossos processos tem sido determinantes para a evolução do mesmo. A
sugestão de Martha para realizarmos entradas e saídas foi um divisor de águas.
A idéia da liderança foi a que mais permaneceu, mas com novas regras
silenciosamente acordadas durante as experimentações, que agora tomaram
formatos de Jam Sessions.
Improvisar junto tem
gerado intimidade entre o grupo, que tem resultado no desenvolvimento tanto
individual como coletivo. O vocabulário de movimentos foi ampliado (acho que as
aulas de ECO I têm contribuído para isso). A percepção do espaço cênico mudou.
Parece já haver uma preocupação em preencher os espaços vazios, seja com
dançarinos, seja com elementos cênicos. A idéia de sincronia se mantém mesmo
quando existem diversas células coreográficas em cena. Cânones também tem
aparecido. Descobrimos que podemos usar a parede, a barra, até mesmo as
janelas.
Não saberia dizer em que momento a coisa
começou a ficar divertida e motivadora para mim, que a cada dia me surpreendo
participando com prazer de Studien Für Viola.
Relatório final apresentado como avaliação do componente Estudos dos Processos Criativos I, sob orientação das professoras Clara Trigo e Martha Saback em 2012-1.
Ativando o Core: Meus Melhores Momentos em ECO I
O QUE MOTIVA
UM SER NOTÍVAGO A ACORDAR COM AS GALINHAS
“Acorda,
vem ver a lua, Que dorme na noite escura, Que surge tão bela e branca,
Derramando doçura, Clara chama silente, Ardendo meu sonhar”.
São 7h da manhã. A doce voz de Djavan me convida a acordar para ver, não a lua, mas o sol. “Só mais cinco minutinhos”, penso eu ainda com os olhos fechados e volto a dormir. Cinco minutos depois Djavan torna a insistir, enquanto minha mãe abre a porta e a janela do quarto. Junto com elas entram Tina e Bibi, minhas duas cadelas boxers: é a comitiva do “Levanta Evie”. Mas nem os cheiros e as lambidinhas, nem mesmo a claridade conseguem me desviar do meu propósito de permanecer nos braços de Morpheu. Às 7h10 Djavan canta sua última chamada e eu enfim levanto, com olhos semi-cerrados, ainda cheios de sono. Lavo rosto, escovo os dentes, me visto, tomo meu café da manhã sem café. Pego a mochila, a bolsa e o colchonete e lá vou cheia de tralhas entrar no bravo Reginaldo (meu velho Uno Mille) enfrentar um trânsito estressante até chegar a Escola de Dança da UFBA. Pelo terceiro semestre consecutivo venho encarando essa desgastante rotina “antibiológica” por conta do módulo Estudos do Corpo.
Sou um ser notívago! Segundo minha mãe, meus hábitos notívagos se
manifestaram desde que comecei a andar, o que geralmente acontecia por volta da
meia-noite. Desde os sete anos descobri que acordar cedo sempre seria um
suplício, pois o sono não dormido me acompanha durante toda a manhã. Chego à
sala de aula e o chão me parece tão aconchegante... Aliás, adoro quando as
aulas começam no chão, pois é como se eu estivesse terminando de espreguiçar o
que não tive tempo de espreguiçar na cama. Durante as aulas de Estudos do Corpo
I (ECO I) o sono parece ter ido embora, mas lá pelas 11h ele retorna impiedoso
e quase sempre não consigo evitar alguns cochilos. O banho frio me desperta
para ir trabalhar pela tarde. Lá pelas 19h ele me pega de jeito no sofá da
minha casa. Desperto pelas 21h com uma ressaca horrorosa, mas às 22h minha
energia começa a subir. À meia-noite estou a todo vapor, mas tenho que tentar
dormir para novamente acordar com as galinhas. Esse foi o resumo da minha
rotina de segunda a sexta durante este primeiro semestre de 2012.
Mas o que
faz com que um ser notívago como eu insista em sofrer acordando com as
galinhas? Aulas prazerosas, criativas, com tantos pequenos detalhes. Vivenciei tantas
coisas especiais em ECO I que encheriam tranquilamente vinte páginas. Mas como
o tempo curto e o número de páginas é limitado, tentarei resumir os aspectos que
foram mais marcantes para mim. Rejeitarei aqui o formato de relatório
técnico-científico sugerido por Cida, pois já algum tempo optei em experimentar
uma escrita mais pessoal e lúdica, mais condizente com o tom descontraído das
nossas aulas de ECO I. Tomarei licença poética e me permitirei todos os
neologismos que tiver vontade. É bem possível que dessa minha “insurreição”
resulte um texto desconexo, incoerente, confuso ou até mesmo ridículo. Mas é de
minha livre e espontânea vontade assumir este risco. E, parafraseando Júlio
César, "Alea jacta est" (a sorte está lançada). Boa Leitura!
REPETIR
PARA ENCONTRAR, DECOMPOR, ESQUECER E REMEMORAR
- GILSAMARA
MOURA -
“De um mesmo movimento, buscar
e encontrar, decompor e unificar, esquecer e rememorar, mas, sobretudo, não se
lembrar. /.../ Se dedicar a esquecer, para se dar a chance de ver afluir as
múltiplas possibilidades de sua mobilidade”.
Acredito que este trecho do texto “Laban ou a Experiência da Dança” de
Isabelle Launay resume bem o efeito das aulas de Gilsamara sobre mim. Durante
todo o semestre trabalhamos uma mesma seqüência de exercícios para aquecimento
e alongamento, além de apoios, rolamentos, suingues (ou serão swings?) e slides,
sempre com algumas variações a cada aula. Para mim, que tenho péssima memória
coreográfica, a repetição juntamente com a observação e análise dos movimentos
contribuiu para a emergência de grande parte dos movimentos (ainda que não da
seqüência tal e qual), durantes os improvisos nas aulas de Estudos dos
Processos Criativos I.
As aulas de Gilsamara foram aulas para suar, mas
que nem por isso negligenciaram o estudo do movimento. E mesmo sendo necessário
o uso de EPI (equipamento de proteção individual), como meias, joelheiras e segunda
pele debaixo de um calor infernal, foram aulas gostosas de fazer. Os movimentos
dessas aulas foram os que mais “grudaram” na minha memória. Em especial, gostei
de praticar slides e rolamentos, inclusive elegi os rolamentos homolaterais
como tema da minha pesquisa para o vídeo-seminário (em exibição no Youtube a
partir de 26/06/2012).
Nas aulas de Gilsamara pude reconhecer algumas
limitações do meu “corpomente”, tanto devido à condromalacia patelar que limita
agachamentos e saltos, quanto ao medo de me machucar (especialmente em
determinadas torções e quedas). Algumas vezes superei, em outras fiz
adaptações, mas confesso que também houve momentos em que desisti sem ao menos
tentar, mas que também aprendi olhando os demais colegas fazerem e, por mais louco
que possa parecer, sentia como se estivesse fazendo (neurônios espelhos,
ativar!).
BATTEMENTS
E LEQUES: POR ONDE COMEÇA O MOVIMENTO
- CIDA
LINHARES -
No começo do texto comentei que este é o meu
terceiro semestre consecutivo que acordo com as galinhas para as aulas de
Estudos do Corpo. Entretanto, não falei que comecei meio que “de trás para
frente”: ECO III, ECO IV e agora ECO I. A professora Cida foi minha vizinha de
sala durante o ano passado. Confesso que seu vozeirão de contralto sempre me
deu certo pavor: só conseguia imaginá-la de vareta na mão batendo nas canelas
dos alunos durante suas aulas, que na minha imaginação eram exclusivamente do
mais clássico ballet!
Quando do processo de aproveitamento de
disciplinas fui dispensada de Laboratório de Condicionamento Corporal I e II,
comemorei ter “pulado uma fogueira” chamada Carla Leite, popular (e temida por
mim) por suas corridas e abdominais. De Cida, porém, não consegui escapar. As
aulas foram acontecendo e o pavor foi se transformando em simpatia e suas aulas
me trouxeram pelo menos três boas surpresas.
A primeira delas foi a atividade de alongamento
em duplas, com foco nas co-contrações e rotação coxofemoral. Uma preparação
corporal pensada para o balé? Pode até ser que sim, mas nem por isso pouco útil
e eficaz. Pena que fiz poucas dessas aulas, porque aconteciam durante as aulas
de Condicionamento Corporal, que passei a freqüentar sempre que conseguia
acordar uma hora mais cedo do que o habitual (vejam só que ironia!).
A segunda surpresa foi praticamente um momento
único, vai ver que uma espécie de castigo divino devido ao mau juízo que fazia de
Cida: estudo de battement tendu (devant,
a la second, derrière). A turma foi convidada a estudar o movimento em câmera
lenta, em que parte do pé começa, por onde ele volta. Depois experimentamos o
mesmo estudo (sem a câmera lenta) para o battement
glissé.
A terceira grande surpresa, talvez a maior de
todas foi a de criar uma célula coreográfica a partir de um objeto pessoal, que
no meu caso foi o meu inseparável leque. Sei que produzi um mero embrião, pois
sinto necessidade de um tempo maior do que a média dos meus colegas para as
investigações criativas. Mas tal atividade também “grudou” no meu pensamento.
Experimentei primeiramente as formas aberta e fechada do leque em várias partes
do corpo e posições. Depois parti para o movimento em forma de semicírculo, já
influenciada pelo começo das minhas aulas particulares de Gyrokinesis.
ATIVANDO
O CORE: UM OLHAR CINESIOLÓGICO SOBRE A DANÇA
-
MÁRCIA SANTIAGO -
Toda receita de sucesso tem seu ingrediente
secreto, aquele algo indecifrável que faz toda a diferença. Essa foi a melhor
metáfora que encontrei para definir a participação de Márcia. Seu olhar
cinesiologicamente treinado é capaz de reconhecer os detalhes mais sutis das
nossas dificuldades, deixando no ar uma sensação de encanto de quem acaba de
ter uma experiência paranormal.
Essa “visão de raio X” me mostrou que meus pés
pronam quando faço relevé, que tenho
pouca mobilidade na região torácica, provável encurtamento na cadeia posterior
e também no iliopsoas, que preciso encontrar e ativar meu core (e eu lá sabia
que tinha core), sem falar na giba de bisonte. Fora isso, a turma inteira tem
escoliose, afinal estudantes de dança são seres humanos (tortos) como qualquer
outro.
Tomei conhecimento das quatro fases do
aprendizado: incompetente inconsciente, incompetente consciente, competente
consciente e competente inconsciente (acho que a etapa mais cruel é aquela em
que você se dá conta de que não sabe fazer, e que nem por isso consegue
fazer!). O vídeo por ela mostrado sobre as fases do aprendizado motor e sua
relação com os rolamentos que fazíamos nas aulas de Gilsamara também foi
decisivo para a escolha do tema para o meu vídeo-seminário (em cartaz no
Youtube a partir de 26/06/2012)
Suas aulas foram tão magicamente interessantes
para mim que passei a me esforçar para acordar uma hora mais cedo para
freqüentar as aulas de condicionamento corporal. O olhar de Márcia me
proporcionou ainda mais investigar os movimentos observando os alinhamentos,
onde e quando meus músculos estão contraídos ou relaxados. A cinesiologia me
fisgou de jeito a ponto de me fazer investir 93 dinheirinhos no livro Anatomia
da Dança, que pretendo ler da primeira à última página.
Entretanto, o protagonista deste semestre foi o
CORE! “Ative o core” foi o slogan de ECO I neste semestre! Conhecer a
musculatura do core foi fundamental para tomar consciência de como estabilizar
o centro é imprescindível para dissociar os membros com eficiência. Sempre
detestei fazer exercícios abdominais, mas tal aversão tem diminuído à medida
que venho praticado pensando em outros objetivos senão a forma final, como
pensar em mobilizar a coluna, em inspirar/expirar, em não tensionar demais a
região cervical (coisa que faço muito).
MAS EIS
QUE CHEGA A RODA-VIVA E CARREGA O CORE PRA LÁ
Há realmente “dias em que a gente se
sente como quem partiu ou morreu”. Foi com o desânimo de quem se confronta com
o inevitável que reagi ao anúncio da greve dos professores da UFBA. Mesmo
sabendo que o semestre não seria perdido, mesmo sabendo tendo certeza da
validade de tudo que foi vivenciado em ECO I, não consigo deixar de me sentir
frustrada por não termos chegado até o fim do período letivo. Simplesmente
saudades de um semestre que “se foi cedo demais”.
Relatório final apresentado como avaliação do componente Estudos do Corpo I, sob orientação das professoras Gilsamara Moura, Cida Linhares e Márcia Santiago em 2012-1.
Assinar:
Postagens (Atom)



